30 de abril de 2014

Os autocarros

A maior forma de elogio que se pode dar a um adversário num jogo de futebol é optar por uma postura extremamente defensiva tendo em vista o empate a zero. Graças à época fantástica ao comando de André Villas-Boas, o FC Porto passou a ser bastante "elogiado" entre portas nas épocas seguintes, principalmente nos jogos no Dragão. Dos mais pequenos aos maiores, quase todos iam a jogo com o olho no contra-ataque, deixando a iniciativa de atacar aos portistas.

Nas duas épocas de Vítor Pereira a estratégia dos adversários passava por ver quem era a equipa que conseguia defender com mais homens dentro da própria área ou nas imediações. Raramente deixavam um jogador à frente da linha da bola e, regra geral, não se aventuravam mais do que três jogadores nas jogadas de contra-ataque. As dificuldades para chegar ao primeiro golo foram quase sempre muitas, muito porque em 2011/2012 faltou um ponta-de-lança e em 2012/2013 saiu o Hulk, que foi quase sempre o abre-latas de serviço. Ficou James com a responsabilidade de encontrar um buraco nas muralhas e, com menor ou maior dificuldade, foi conseguindo.

Não sei se por opção ou olhando à falta de jogadores explosivos, Vítor Pereira desenvolveu um sistema de jogo baseado na posse de bola e na segurança defensiva. Acredito que foi um pouco dos dois. O que é certo é que a maioria dos portistas não apreciava um modelo de jogo que fazia com que o FC Porto passasse 70% do tempo de jogo a passar a bola junto à grande-área do adversário, à espera da melhor oportunidade para chegar ao golo. O próprio admitiu que lhe faltavam desequilibradores ao jogo do FC Porto e que caso a mesma estrutura fosse mantida e os conseguisse contratar que chegaria a um patamar superior. Foi isto tudo isto o que o clube não fez.

No Verão de 2013 James e Moutinho foram vendidos e os desequilibradores não chegaram. Para piorar a situação, Paulo Fonseca foi escolhido para ser o novo treinador e logo decidiu rasgar com o passado recente. Talvez cego pelo terceiro lugar alcançado no Paços de Ferreira numa época em que os portistas se queixavam (de barriga cheia) do futebol que os Dragões praticavam, o recém-chegado decide deitar para trás um trabalho de três épocas - que começou com Villas-Boas e teve continuidade em Vítor Pereira - para implantar um modelo de jogo que se esperava ser de ataque vertiginoso e com um meio-campo formado por um 10 à antiga e dois médios mais defensivos. Não podia ter corrido pior.

A certa altura já toda a gente tinha percebido que o Fernando funcionava melhor sem ninguém ao lado e que havia jogadores que não estavam a render metade do que podiam render por causa do cansaço acumulado e por causa de uma táctica que não beneficiava um jogador que fosse. Paulo Fonseca saiu tarde demais e Luís Castro apanhou uma equipa completamente desfeita e, prestes a entrar na parte decisiva da temporada, sem qualquer fio de jogo.

Luís Castro até começou bem, mas acabou por não conseguir conquistar nada. Fracassou contra o Sevilha na Liga Europa e contra o Benfica em ambas as taças. Em todos os jogos o adversário teve um jogador a menos durante grande parte do jogo e mesmo assim conseguiram aguentar o ataque do FC Porto - é a tal história dos autocarros contra uma equipa sem desequilibradores...

Pelo meio disto tudo, Luís Castro descobriu que havia jogadores no plantel que já deviam ter muito mais tempo de jogo. Ghilas, Ricardo, Quintero e Reyes mostraram ser jogadores competentes e com qualidade para jogar no FC Porto. Se Paulo Fonseca tivesse arriscado neles mais cedo talvez jogadores como o Danilo, Alex Sandro, Varela ou Jackson não estivessem completamente exaustos no último terço do campeonato. Paulo Fonseca fez uma gestão à Jorge Jesus e o FC Porto acabou com uma época à Benfica.

É evidente que há lacunas a ser preenchidas para a época que aí vem, mas a mais importante é no lugar de treinador. De nada adianta ter bons jogadores se no comando estiver alguém com medo de apostar nos que jogam menos vezes e que a isso ainda junte a falta de noção do que se passa à sua volta. A culpa de uma época desastrosa não pode ser só de uma pessoa e é óbvio que o Paulo Fonseca não foi o culpado de tudo, mas é minha convicção que com um bom treinador no banco o FC Porto pelo menos tinha dado luta. Espero que a lição tenha sido aprendida.