27 de outubro de 2014

A (r)evolução no meio-campo


Terminada a partida, foi atribuída à continuidade no onze promovida por Lopetegui a responsabilidade pela goleada imposta pelo FC Porto ao Arouca. Em relação ao jogo da Liga dos Campeões frente ao Bilbau, saiu Maicon para entrar Marcano e o resto da equipa repetiu-se. Para os analistas as coisas foram muito simples: Lopetegui não inventou e o Porto ganhou. Não deixa de ser verdade, mas é uma verdade muito limitada. Dar continuidade a uma equipa por si só não é garantia de nada, é preciso corrigir os erros que vão surgindo e adaptar a forma de cada jogador agir às necessidades do conjunto. Foi precisamente isso que o treinador portista fez.

Graças aos golos que o FC Porto tem vindo a sofrer, está bem evidente que o grande problema está na saída de bola a partir da defesa. Por isso, comecemos na única alteração no onze em relação ao jogo anterior. Não há grandes dúvidas que Maicon, quando está bem, é mais jogador do que o Marcano pode aspirar ser, mas isso não significa que seja melhor em tudo. O brasileiro tem-se mostrado muito nervoso e hesitante com a bola nos pés, em contraste, o espanhol tem-se revelado mais sereno e rápido a decidir. A troca levada a cabo por Lopetegui terá sido em grande parte influenciada por isto, mais até do que pelos erros cometidos pelo Maicon.

Mas a grande alteração foi na dinâmica do meio-campo. Pela primeira vez esta época vimos o médio-defensivo (Casemiro, neste caso) fazer de regra e não de excepção o recuo para junto dos centrais para iniciar a construção. O que acontecia nos jogos anteriores era uma troca de bola constante entre os defesas e o guarda-redes e que só saía dali quando um dos jogadores mais virtuosos tecnicamente conseguia criar uma situação de desequilíbrio. Quando este processo corria mal, era perigo pela certa para a baliza portista. Tudo isto porque os três médios jogavam muito adiantados e todos eles de costas para o ataque quando a bola se encontrava em terrenos recuados. O trinco ao baixar dá liberdade aos laterais para subirem e liberta a equipa da pressão dos dois extremos adversários que se veem obrigados a recuar, ao mesmo tempo que lhe permite jogar de frente para o jogo e, a cima de tudo, para a frente. Tudo isto é muito comum no futebol, mas tem sido raro na versão 2014/2015 dos Dragões.

Com a equipa mais estável atrás apareceram os desequilibradores. Danilo está um monstro, Alex Sandro apareceu em bom plano, Quintero está cada vez melhor, Herrera vem também numa sequência de bons jogos, Brahimi é um jogador de topo, Tello uma verdadeira seta apontada à baliza adversária e para Jackson já nem há palavras. Quando se consegue meter tanto talento ao serviço da equipa o resultado está à vista.

Claro que os especialistas e analistas preferiram dizer que a goleada foi fruto da incapacidade do Arouca em pressionar o FC Porto, ignorando o porquê disso ter acontecido. Se tivessem feito esse raciocínio lógico em vez de estarem atentos ao que o Quaresma andava a fazer, talvez tivessem chegado à conclusão que o Arouca não pressionava mais porque não podia nem conseguia. Mérito para a equipa do Porto e para o treinador Lopetegui.

Casemiro e a posição 6


Pelo que me é permitido ler e ouvir, penso que é opinião quase generalizada que Casemiro não é o médio-defensivo que o FC Porto precisa. Talvez devido a vários anos com Fernando na posição, criou-se a ideia no seio portista que quem ali jogar tem de estar em todo lado. Muitos acusam o actual camisola 6 de ser demasiado lento para o lugar e de não ter qualidade para ser titular no FC Porto. Outros há que chegam ao extremo de afirmar que não teria lugar no plantel e que só joga porque veio do Real Madrid. Eu discordo.

Na minha opinião, o Casemiro tem várias características que o tornarão num óptimo trinco a curto prazo: bom desarme, agressividade, bom jogo aéreo e boa capacidade técnica e de passe. O que o separa neste momento de ser um 6 de eleição é a falta de rotina na posição, mas isso adquire-se com jogos e muito treino. Sendo ele um bom profissional e um jogador de selecção - brasileira, não de uma qualquer -, é natural que o processo seja mais rápido.

Curiosamente, surgiu hoje a notícia que Ancelotti pondera fazer regressar ao Real Madrid já em Janeiro aquele que para alguns não tem lugar no plantel dos Dragões. Para isso o clube espanhol teria de terminar o empréstimo meio ano mais cedo e por isso indemnizar o FC Porto. A saída do brasileiro abriria as portas da titularidade a Rúben Neves, que teria a concorrência de Campaña e de Mikel, que por essa altura já estará pronto a jogar. No entanto, acredito que esta cenário não se verificará, uma vez que Casemiro ficaria impedido de alinhar na Liga dos Campeões pelo Real Madrid, algo que não seria do agrado nem do jogador nem do clube.