27 de março de 2015

Quando a realidade difere do que (supostamente) se viu

Sempre que o FC Porto perde ou empata existe imediatamente junto dos portistas uma necessidade extrema de apontar o dedo a alguém. No entanto, o que acontece durante essa procura incessante pelo culpado vai muitas das vezes ao encontro do que cada um quer ver e não do que na realidade aconteceu. O empate obtido na Choupana foi fruto de uma má exibição colectiva, motivada pelo cansaço físico e psicológico presentes em muitos dos jogadores - que estavam ainda sob uma elevada dose de ansiedade fruto da derrota do Benfica que acontecera minutos antes - e também devido a algumas más opções de Lopetegui.

Entre esses erros existem três que são difíceis de aceitar: a substituição prematura de Casemiro, a não utilização de Óliver e a opção por Quintero. Digo aceitar em vez de perceber porque, no fundo, até se percebe qual foi a intenção do treinador basco. Com o Nacional cada vez mais por cima no jogo, Lopetegui tentou com Rúben Neves e Quintero trazer qualidade de passe para tentar manter a posse de bola para o FC Porto, cortando dessa forma qualquer iniciativa de jogo à equipa da casa. Escusado será dizer que a aposta falhou redondamente. Agora é fácil para qualquer um dizer que mais valia ter lançado Indi e adiantar o Marcano para fazer de Casemiro ou que devia ter entrado Quaresma em vez de Quintero, derivando assim o Brahimi para a posição 10 de forma a poupar uma substituição.

Qualquer dessas opções era válida, tão válida como as que Lopetegui escolheu. Por isso aceito pacificamente que o treinador portista tenha pensado diferente de toda a gente, concedendo-lhe assim o direito a errar. A única coisa que me custa a aceitar é ver o Óliver no banco, mais ainda quando a equipa anda completamente à deriva. Basta relembrar que havia ainda a ausência de Jackson, um dos grandes responsáveis pela pressão alta que o FC Porto nos habituou e que divide com o médio espanhol o mérito pela forma inteligente com que os Dragões impedem os adversários de construir jogo à vontade.

Este cocktail de acontecimentos resultou na perda de dois pontos e no mau aproveitamento de uma oportunidade de aproximação ao primeiro lugar. Mas o que fizeram os portistas? Apontaram o dedo ao jogador que estava mais próximo do adversário que marcou o golo do empate, neste caso ao Alex Sandro. Daí até procurarem por outros lances que o brasileiro alegadamente tenha estado mal foi um pequeno passo.

Após leitura de vários espaços de opinião na Internet, estes são os três lances onde, regra geral, as pessoas se queixam da atitude do camisola 26:

Minuto 40 - Após uma sucessão de bolas devolvidas pelo ar de parte a parte, o jogador madeirense ganha a posição a Alex Sandro e inicia o ataque pelo lado esquerdo da defesa do FC Porto. Casemiro faz rapidamente a dobra e obriga a que a jogada continue pelo centro do terreno, enquanto o lateral portista recupera a posição. Enquanto Marcano dividia o lance com o atacante do Nacioanl, o resto da defesa, com Alex Sandro incluído, tentam definir uma linha de fora-de-jogo. O espanhol perde o lance e Herrera, porque pensou primeiro em atacar e não em defender, fica automaticamente fora do lance. Veredicto dos portistas: Alex Sandro começa a dar sinais de cansaço.

Minuto 63 - Com Herrera caído após choque com um adversário, Tello a tentar recuperar à última da hora e Danilo à espera ninguém sabe bem do quê, o jogador da casa tem tempo para levantar a cabeça e cruzar à vontade para a área do FC Porto sem qualquer hipótese para Helton interceptar o cruzamento. Maicon e Marcano falham o corte ao primeiro poste e Alex Sandro, apesar de bem posicionado e de ter acompanhado sempre o lance, não chega a tempo para impedir o remate ao segundo. Estava feito o empate. Veredicto dos portistas: Alex Sandro estava a dormir.

Minuto 71 - Canto para o FC Porto que, inexplicavelmente, é marcado de forma rápida e acaba em contra-ataque para o Nacional. No inicio da jogada podemos ver três atacantes madeirenses para três defensores portistas, mas rápido se percebe que o Herrera não está muito interessado em correr para defender. Alex Sando, que estava bem mais adiantado do que o mexicano, aparece a recuperar em velocidade para tentar equilibrar as contas, mas não consegue ser rápido o suficiente para impedir o remate. Veredicto dos portistas: Alex Sandro demonstra uma atitude displicente e quase consente novo golo ao adversário

Três lances em que muita coisa podia ter sido diferente logo desde o inicio de cada um deles mas que acabaram com as culpas a serem atiradas para cima do mesmo jogador em todos eles. Espanta-me que ainda haja tantos portistas a irem na cantiga dos opinion-makers e comentadores televisivos, sabendo de antemão que a grande maioria deles só quer ver o FC Porto a arder por dentro e que para o conseguir não têm problemas em atacar seja quem for. Desta vez calhou ao Alex Sandro.