3 de março de 2015

Quando um hat-trick rouba o prémio de MVP, o alegado cansaço do Sporting e Artur Soares Dias

Acho injusto que o prémio de melhor em campo seja atribuído àquele que marcou um golo, embora entenda que um hat-trick num jogo desta importância não deixe grande margem de manobra. Tello foi considerando o MVP do clássico, deixando para trás Jackson Martínez que, não tenho dúvidas, foi o jogador-chave do FC Porto. Tello teve o dom de (finalmente!) aproveitar um trabalho colectivo que lhe permite jogar quase como Wide Receiver ao estilo do futebol americano, sem qualquer preocupação defensiva, deixando o apoio a Danilo entregue a Casemiro e Herrera, com Jackson a ajudar a apagar os fogos a meio-campo resultantes desta peculiar Simbiose. O avançado colombiano tem o dom de se adaptar com facilidade ao companheiros e, ao contrário da moda para a posição, está disposto a ser aquele que serve a equipa em vez de esperar ser servido por ela. A jogar como no passado domingo e em muitos outros jogos, Jackson podia acabar o campeonato sem qualquer golo que não deixaria de ser um enorme destaque na equipa do FC Porto. Acho que não pode haver maior elogio para um ponta-de-lança do que este.

Claro que o trabalho do FC Porto desenvolveu pouco ou nada importaram para os experts. Os verdadeiros motivos foram o desgaste do Sporting e uma má noite de Jonathan Silva. Em primeiro lugar, não posso deixar de dizer que se trata de uma análise um bocadinho primitiva por parte dos opinion-makers ao atribuir a culpa dos três golos ao lateral argentino. "Quem marcou os golos? Foi o extremo-direito? Então a culpa foi do lateral-esquerdo adversário". Não, não é assim que nada disto funciona. O que pode fazer um defesa quando está um para um com um extremo muito mais rápido e quando o resto da defesa está demasiado recuada quer para impedir o Jackson de jogar à vontade, quer para definir uma linha de fora-de-jogo a Tello? Isso então é demasiado evidente no segundo golo, onde Cédric está dois ou três metros atrás dos restantes companheiros de sector. Marco Silva foi traído pela estratégia de pressão alta, com os médios João Mário e Adrien a pressionar bem alto a saída de bola do FC Porto, talvez por não contar com Evandro a tirar William da posição 6 e com Jackson a aproveitar essa "no man's land" para jogar à vontade.

Depois há a questão do desgaste dos jogadores do Sporting. Quem foram os melhores em campo na equipa verde-e-branca? Para a imprensa desportiva foram Paulo Oliveira, William Carvalho, João Mário e Cédric. Curiosamente, todos eles jogaram 90 minutos no empate a zero com o Wolfsburg. Adrien, um dos mais apagados no Dragão, foi substituído aos minuto 64 no jogo europeu já depois de não ter alinhado um único minuto na jornada anterior. No clássico também saiu com o jogo em 60 minutos. Montero, que também não teve uma noite feliz, jogou 12 minutos na passada quinta-feira e também ele não foi utilizado frente ao Gil Vicente. Carrillo fez 30 minutos como suplente utilizado na jornada anterior e actuou cerca de 80 minutos tanto na Liga Europa como frente ao FC Porto. Mesmo em minutos acumulados os jogadores do Sporting estão um bocado atrás dos Dragões. Excluindo os guarda-redes, só William Carvalho (2602 minutos) se aproxima de Jackson e Danilo (2811 e 2749 minutos, respectivamente) na lista dos mais utilizados. Por exemplo, numa comparação directa, Herrera tem sensivelmente os mesmos minutos que Adrien e mais 200 do que João Mário. No entanto, o mexicano acabou o jogo em alta enquanto Adrien, como já referi, foi substituído relativamente cedo na partida e João Mário acabou visivelmente esgotado. Danilo, que esteve em dúvida para o jogo por lesão e que até saiu lesionado, não teve qualquer problema em secar Nani que até tem menos sensivelmente 400 minutos nas pernas. Mesmo Carrillo tem menos 100 do que Alex Sandro. Se o problema fosse mesmo o cansaço, porque é que o Marco Silva deixo o Carlos Mané, que tem estado bem,fora dos convocados? Dito isto, não será simplesmente a equipa do FC Porto superior à do Sporting ou a estratégia de Lopetegui melhor que a de Marco Silva?

No fim do jogo tive oportunidade de escrever o seguinte sobre o trabalho da equipa de arbitragem: "Artur Soares Dias fez uma daquelas arbitragens habilidosas, onde tudo o que era faltinha contra o FC Porto era assinalada enquanto que os jogadores do Sporting iam jogando duro à escala que bem entendessem. O árbitro portuense mandou jogar em três lances duvidosos na área dos leões, perdoou o cartão amarelo a João Mário por falta dura sobre Herrera, enquanto Cédric ainda está a tentar perceber como acabou o jogo. Já Danilo e Alex Sandro levaram cartões amarelos absolutamente ridículos. Há que começara a arrepiar caminho a ver se algum deles chega ao 9.º para o grande dia... Escaparam os árbitros auxiliares, que decidiram bem em todos os lances, ao contrário do que já aconteceu por imensas vezes neste campeonato".

Curiosamente, a arbitragem do clássico foi ao encontro do que Artur Soares Dias já fez no passado, como o exemplo que também descrevi aqui ainda na semana passada: "Mais do que o amolecimento do Estoril (5.º amarelo exibido aos dois defesas-centrais dos estorilistas) para a visita à Luz nesta jornada, importa tentar não lembrar a arbitragem habilidosa no Benfica-FC Porto da época passada onde, talvez para também ele homenagear Eusébio, interrompeu uma jogada em que Jackson seguia isolado para a baliza encarnada para marcar uma falta a meio campo e transformou duas faltas de Garay dentro da grande-área do Benfica sobre jogadores portistas, Quaresma e Danilo, em simulações, sendo que a Danilo lhe valeu o segundo cartão amarelo e o respectivo vermelho. Curiosamente ou não, o primeiro foi mostrado na sequência dos protestos feitos no lance interrompido ao Jackson".

Olhando a estes factos, faz-me um bocado de confusão que Pinto da Costa tenha decidido fazer vista grossa ao trabalho do árbitro no jogo de domingo. Não pode estar tudo bem simplesmente porque o FC Porto ganhou. Erros são erros e num campeonato como este, onde a tendência dos mesmos começou a ser definida desde muito cedo, não se pode estar com paninhos quentes. Artur Soares Dias fartou-se de inventar faltas ao ataque portista dando com isso um empurrãozinho ao Sporting, que ia aproveitando para sacudir a pressão. Num dia mau do FC Porto teria sido o suficiente para inclinar completamente o campo. Entristece-me que se desculpabilize desta forma os tais erros flagrantes que o próprio Pinto da Costa mencionou. Não se pode baixar a guarda desta maneira só porque se ganhou e não percebo o que fez mudar a opinião do Presidente que ainda na época passada afirmou que o árbitro portuense "tem que deixar a arbitragem ou pedir escusa dos jogos do FC Porto".

P.S.: Em Espanha já os toparam...