18 de maio de 2015

A base está construída

Pinto da Costa trouxe Lopetegui para o FC Porto e deu-lhe um contrato de três épocas, tendo ainda o clube a opção de acrescentar outras duas. Significa isto que o plano passa por da estabilidade ao treinador e ao clube, para que haja tempo de alicerçar um projecto sólido. Obviamente que a época que agora termina não é indiferente e que se perdeu uma boa oportunidade de ganhar o campeonato, mas a sensação que deu desde o inicio foi que por muito que o FC Porto fizesse, na hora H aparecia sempre algo a fazer a balança pesar para o outro lado. O empate frente ao Belenenses acaba por ser normal tendo em conta que o campeonato ficou perdido no empate na Luz, embora o treinador e muita gente se recusassem a admiti-lo. O FC Porto perdeu a última oportunidade de ser campeão a trocar a bola na defesa no tempo de descontos desse jogo, quase como se houvesse um qualquer pacto de não-agressão. Depois disto, esperar que fossem os dois últimos classificados ou os amigos madeirenses a ajudar o Vitória de Guimarães a roubar pontos a uma equipa de trintões, programada para bater em mortos e jogar para o pontinho contra os adversários com capacidade para fazer cinco passes seguidos, é inconcebível. Pior ainda quando olhamos para os factos e percebemos que o Benfica jogou sempre com o vento a favor, beneficiando de todo o tipo de ajudas. Mesmo que o cabeceamento do Jackson aos 90'+3' tivesse entrado, o Benfica teria ainda imenso tempo para forçar a vitória - com o sem ajudas - uma vez que o jogo do FC Porto terminou e em Guimarães entrava-se no minuto 88, sendo ainda acrescentados 6 de descontos pelo árbitro. Depois de tanto alarido porque um jogo do FC Porto começou um minuto e alguns segundos atrasado na fase de grupos da Taça da Liga, não deixa de ser curioso que ninguém se dê ao trabalho de mencionar isto. Ou, imagine-se, a LPFP resolver o problema.

O que fica para a História é que o Benfica ganhou dois campeonatos seguidos e, fazendo fé na comunicação social, honra lhes seja feita: acabaram com a hegemonia do FC Porto dos últimos 34 anos. Só mesmo ao alcance dos predestinados, porque nem Sporting e Boavista, responsáveis pelo maior período de seca do FC Porto tendo Pinto da Costa como presidente - 3 épocas -, conseguiram em conjunto alcançar tal feito. Os outros iam ganhando mas a hegemonia portista continuava, só mesmo o Benfica, qual D. Sebastião, para lhe por termo. A que custo ainda vamos ver.

Dito isto, importa não esquecer o seguinte: FC Porto e Benfica, mais próximos do que nunca no que a competitividade diz respeito, cruzaram-se esta época vindo de trajectórias bem diferentes. Enquanto os lisboetas vão espremendo o último sumo de um plantel cada vez mais envelhecido e perdendo a cada janela de transferências opções importantes, deixando ficar apenas os mais velhos, o FC Porto começou o trajecto inverso após ter andado a fazer algo semelhante no pós-Villas-Boas.

Muito se fala no fim de ciclo no Dragão, quando o mesmo fechou com a saída de Vítor Pereira. Neste momento quem se encontra em fim de ciclo é o plantel liderando por Jorge Jesus que, se for/fosse inteligente aproveitava para sair pela porta grande. O clube não se pode dar ao luxo de continuar a fazer uma forcinha para garantir o terceiro lugar na fase de grupos da Champions para tentar vencer a Liga Europa ou, à imagem do que aconteceu este ano, cair mesmo nas provas europeias em Janeiro para se dedicar apenas ao campeonato. As finanças começam a apertar e os anéis já foram quase todos, os adeptos vão começar a exigir mais levados pela euforia de um feito do qual já não havia memória no clube, e os jogadores vão começar a querer novos voos. O FC Porto, fruto do sucesso das últimas décadas, passa por isso quase todas as épocas, veremos como o Benfica se aguentará.

Lopetegui tem agora uma missão diferente da que lhe foi dada na época que agora termina. Este ano chegou com o objectivo de colocar o FC Porto na Liga dos Campeões e preparar a equipa para dominar o futebol português nos próximos anos, no próximo terá de começar a colher os frutos. Para isso será preciso reconstruir o plantel. Entre emprestados, equipa B, quem sabe sub-19 e contratações pontuais, será preciso colmatar as saídas de alguns jogadores que até agora foram fundamentais, como é o caso de Danilo e, muito provavelmente, Jackson Martínez e/ou Alex Sandro.

Apesar disso, existirá sempre a vantagem de manter uma base para começar a nova época sem apressar a integração no onze dos reforços. Isso não foi possível em 2014/2015 fruto dos absurdos 17 novos jogadores no grupo, sendo isso uma das possíveis causas da instabilidade promovida pelo treinador no onze numa fase inicial. Em 2015/2016 Lopetegui já saberá com quem contar, mas, principalmente, com o que contar em muitos dos jogos do campeonato.

O título de sub-19 promete uma nova fornada de jovens talentos nos próximos anos, equanto que na equipa B já há muito o que aproveitar. A classificação não reflecte a qualidade da formação secundária do FC Porto, que em janeiro viu jogadores com Ivo, Kayembe e Otávio partirem por empréstimo e Gonçalo Paciência mudar-se para a equipa principal. Com a chegada da fase final do campeonato de sub-19, tornou-se mais dificil ainda porque foram vários os jogadores que deixaram de poder ajudar os comandados por Luís Castro, ficando assim a equipa B com um grupo muito limitado e a competir na longa II Liga e na Premier League International, tendo mesmo chegado à final da prova.

Estou certo que a próxima época começará com um FC Porto detentor de um plantel forte e competitivo, capaz de dominar no campeonato e fazer uma boa campanha na Liga dos Campeões. A única coisa que poderá impedir o título de voltar ao Dragão será uma combinação de erros próprios com o colinho para os do costume e com a passividade dos responsáveis portistas. No fundo, a mesma formúla que roubou este campeonato ao museu do FC Porto.