20 de maio de 2015

Mitos contemporâneos

Boavista 0-2 FC Porto
Quando uma equipa como o FC Porto não vence o campeonato existem, praticamente, apenas duas opções para o justificar: ou foi porque falhou redondamente, como foi o caso de 2013/2014 com Paulo Fonseca; ou então porque falhou num qualquer momento que, a posteriori, vai-se a ver era um momento-chave. Embora seja uma conclusão básica, não deixa de ser engraçado que haja pessoas a serem pagas para dizer isto semanalmente um pouco por todos os meios de comunicação. E fazem-no com o orgulho próprio de quem acabou de descobrir a roda ou mesmo o fogo.

FC Porto 3-0 Sporting
Como o FC Porto perdeu o campeonato a uns abismais três pontos do melhor Benfica de todos os tempo torna-se difícil incluir o campeonato na categoria dos catastróficos, há que vender a ideia de que os comandados por Lopetegui falharam em todos os momentos-chave da época. Não foi em um nem em dois, foi em todos. Quem o diz são os especialistas e grande parte dos portistas vão na onda, alinhando muitas vezes chorrilho de críticas à equipa que tem tanto de injusto como de injustificado.

SC Braga 0-1 FC Porto
Desde a derrota na Madeira frente ao Marítimo que para o FC Porto todos os momentos passaram a ser momentos-chave. Nessa jornada o Benfica ficou com a possibilidade de aumentar a diferença pontual para nove pontos em caso de vitória mas, curiosamente, os comandados por Jorge Jesus, aqueles que não vacilaram nos momentos-chave, acabaram por sair derrotados de Paços de Ferreira. Depois disso, o FC Porto venceu nas oito jornadas seguintes, mas tratavam-se apenas de momentos banais, presumo.

FC Porto 1-0 Arouca
Se o FC Porto tivesse sido campeão, vitórias como o 0-2 no Bessa mesmo sem Casemiro, Alex Sandro e Danilo convenientemente castigados em simultâneo; o 3-0 ao Sporting com um exibição de encher o olho; o 0-1 em Braga - campo onde a equipa que não vacila em momentos-chave perdeu - mesmo tendo perdido Jackson por lesão com o jogo em 0-0; ou até o suado 1-0 na recepção ao Arouca tendo de jogar 80 minutos em inferioridade numérica tendo jogado a meio dessa semana para a Liga dos Campeões, todos eles levariam o rótulo de momento-chave.

É fácil comprovar que é uma absoluta mentira dizer que o FC Porto não venceu nenhum dos jogos que não podia admitir outro resultado que não fosse a vitória. Por isso é que, para tentar justificar algumas posições, existe a tendência de reanimar velhas tretas como a falta de mística, a teoria que certos jogadores só correm para a Liga dos Campeões, ou dizer que é inadmissível uma equipa que quer ganhar o campeonato ter já empatado por sete vezes.

A diferença entre FC Porto e Benfica desta época reside precisamente aqui. Enquanto que os agora bicampeões viram as equipas de arbitragem ajudar a transformar empates em vitórias (por exemplo na Madeira frente ao Nacional ao anular um golo por fora-de-jogo à equipa da casa quando Marco Matias estava um metro em linha, ou na deslocação ao Estoril em que Enzo Pérez transformou uma simulação grosseira, que deveria ter valido o segundo amarelo ao próprio, numa expulsão para a equipa anfitriã), o FC Porto foi impedido de chegar à vitória pelos mesmos protagonistas (como por exemplo em Alvalade ou em Guimarães).

Não me revejo nas manifestações contra a equipa que, pelo segundo ano consecutivo, alguns adeptos tiveram a infeliz ideia de fazer contra a equipa depois de estar consumada a perda do campeonato. Primeiro, porque o tempo útil de qualquer tipo de pressão psicológica já havia ido há muito tempo, depois porque não partilho da ideia de que houve falta de empenho por parte dos jogadores. O que aconteceu após o empate a zero na Luz deixou a equipa abalada psicologicamente porque toda a gente ficou com a noção de que o campeonato estava perdido. E mesmo o 0-0 frente ao Benfica se deve em grande parte ao desgaste físico e psicológico que antecedeu o clássico. Acreditam que o resultado teria sido o mesmo naquele período de maior fulgor portistas, antes das lesões de Tello e Jackson? Por aqui se percebe a urgência que o Benfica sentiu em adiar a final da Taça da Liga contra o Marítimo para que o FC Porto não tivesse tempo para se recompor.

Em relação ao campeonato em geral, o segundo lugar deve-se em grande parte à inexperiência do treinador e do plantel. Por isso mesmo é fundamental manter o maior número de elementos do grupo actual, treinador incluído, para que não seja preciso recomeçar uma vez mais o processo de maturação. Principalmente porque, apesar da inexperiência, não havia muito o que fazer perante um cenário tão inclinado como foi esta Liga NOS. Bastava tirar as arbitragens da equação que o resultado tinha sido outro e de forma bastante clara. Toda a gente sabe isto, por isso não entendo a tendência de apontar noutras direcções.