29 de outubro de 2014

O clube mais representativo de Portugal

Sejamos sinceros: o Sporting nem sempre foi o melhor e maior clube em Portugal. Bruno de Carvalho disse recentemente que "nós (Sporting) representamos Portugal, os outros representam províncias ou bairros". Os outros são FC Porto e Benfica, sendo que este último foi quem dominou o futebol português até à década de 80, antes do grande boom verde e branco. O propósito deste post é contar a história que levou o Sporting ao topo do futebol em Portugal, na Europa e no Mundo.

Até 1987 o Benfica era o único clube português que havia vencido a Taça dos Campeões Europeus, feito que havia logrado por duas vezes. Nesse ano, fruto de uma equipa de sonho, o Sporting consegue chegar à final da prova e vencer por 2-1 os alemães do Bayern de Munique. Para isso muito contribui um golo de calcanhar - que deu o empate a um - e que ainda hoje está presente na memória de todos os sportinguistas e de todos os amantes do desporto rei. Com esta primeira conquista internacional, o Sporting começava a construir as bases para chegar ao lugar que ainda hoje ocupa, o de clube com mais títulos do futebol português. Mas engane-se quem acha que o Leões ficaram por aqui. Na época seguinte o clube da capital portuguesa venceu a Supertaça Europeia após vencer o Ajax por 1-0 em cada uma das duas mãos (actualmente a prova é disputada apenas em um jogo realizado em campo neutro) e chega ao topo do mundo com a vitória na Taça Intercontinental. Num jogo épico devido ao frio extremo que cobriu o campo de neve, o Sporting consegui vencer o Peñarol por 2-1 já no prolongamento após o empate a um no tempo regulamentar. Em Portugal, até à data de hoje, só o Sporting venceu estes dois troféus (Supertaça Europeia e Taça Intercontinental).

16 anos depois o Sporting volta às finais europeias. Pelo meio, entre outras vitórias, ficaram duas dobradinhas e um pentacampeonato, fazendo a supremacia dos Leões ser demasiado evidente. Desta vez coube aos escoceses do Celtic, curiosamente conhecidos como "Leões de Lisboa", serem derrotados por 3-2 no prolongamento de uma final emocionante da Taça UEFA que dava empate a dois golos no final dos noventa minutos. Uma vez mais, trata-se se um feito inédito pois até ao presente ainda mais nenhuma equipa portuguesa conseguiu vencer o troféu. Mesmo tendo já um dos rivais do Sporting, em 2004/2005, ter chegado à final que foi realizada no próprio estádio. Imagino como terá sido hilariante para os sportinguistas assistir à derrota de um rival que tinha a vantagem de jogar no próprio reduto.

Com a vitória na Taça UEFA chegou a possibilidade de disputar a Supertaça Europeia e com ela chegou o primeiro dissabor internacional. O Sporting perde por 0-1 com o campeão europeu em titulo, o AC Milan. Apesar disso, a equipa mostrou de que fibra era feita e acabou a época com um dos maiores feitos do futebol mundial: vencendo a Liga dos Campeões. 2003/2004 foi o época que trouxe o Sporting de volta ao topo do futebol europeu, feito inacreditável tendo em conta a realidade económica em Portugal quando comparada com países como Alemanha ou França, ou a qualidade do campeonato quando comparada com o inglês, o espanhol ou o italiano. 3-0 foi o resultado na final frente aos "franceses" do Mónaco. Na época seguinte, nova derrota na Supertaça Europeia (1-2 frente ao Valência) e nova vitória na Taça Intercontinental. Neste jogo o Sporting foi bastante prejudicado pela arbitragem pois teve dois golos mal invalidados e também se pode queixar da sorte pois viu vários remates bater no poste. Apesar disso, a equipa conseguiu manter a cabeça fria e vencer nos penáltis após o empate a zero nos 90 minutos e no prolongamento.

No passado mais recente, destaque para a vitória na Liga Europa em 2010/2011. A final foi disputada contra o Sporting de Braga que havia eliminado nas meias-finais o Benfica. 1-0 foi o resultado final, sendo o golo marcado pelo melhor marcador da prova com 17 golos e que fazem dele o maior goleador de sempre em provas europeias. Depois disso, já o Benfica conseguiu acumular duas finais e outras tantas derrotas na prova.

O Sporting é actualmente o clube português mais bem sucedido internacionalmente, tendo mais do dobro dos troféus internacionais que as outras equipas portuguesas todas juntas. Além disso, tem dominado internamente, apesar da recém aproximação do Benfica. Quem achou que Bruno de Carvalho disse o que disse apenas pelo facto do clube se chamar Sporting Clube de Portugal está muito bem enganado, como provam os títulos oficiais ganhos pelo emblema de Alvalade nas últimas cinco temporadas. Hoje o Sporting é um clube conhecido (basta ver pelas as imagens presentes no post) e, principalmente, temido na Europa e no Mundo.

Quem não parece aceitar isso é a própria UEFA que, talvez ignorando a grandeza do Sporting, considerou inadmissível o protesto dos Leões, que surgiu porque estes entenderam ter sidos fortemente prejudicados frente ao Schalke 04 e que tinha por objectivo dar a oportunidade ao organismo que tutela o futebol na Europa de mandar repetir o jogo ou comprar o silêncio leonino por €500mil, valor monetário atribuído pela própria UEFA a cada equipa por um empate na Liga dos Campeões.

Uma coisa é certa: quem fica a perder é a UEFA, pois acabou de fazer um inimigo muito poderoso. Além disso, a própria Liga dos Campeões está a um passo de ficar mais pobre, porque o Sporting tem as contas muito complicadas para aspirar ao apuramento aos oitavos de final. O espetáculo ficará mais pobre, ou não fosse a equipa leonina uma das duas que fizeram uma das eliminatórias com mais golos (13) da história da prova.

28 de outubro de 2014

O que é Ser Porto?

Jackson e Danilo foram dois dos galardoados ontem pelo FC Porto com um Dragão de Ouro, sendo que o colombiano é já repetente depois de também ter recebido um em 2013. Nenhum deles é português e os anos de serviço no clube podem ser contados pelos dedos de uma mão e ainda sobram dedos. No entanto, Jackson é um dos capitães de equipa e Danilo também está na hierarquia da braçadeira, como se pode comprovar no jogo de sábado em Arouca. Saberão eles o que é Ser Porto? Quando é que alguém pode dizer "eu Sou Porto"? E afinal o que quer isso dizer?

Estas perguntas e todas as que se podem fazer sobre este tema são de difícil resposta. Mas, como disse o Hélton, há uma diferença entre torcer pelo Porto e Ser Porto. Como não consigo descrever as diferenças, decidi trazer alguns exemplos do que não é Ser Porto.

27 de outubro de 2014

A (r)evolução no meio-campo


Terminada a partida, foi atribuída à continuidade no onze promovida por Lopetegui a responsabilidade pela goleada imposta pelo FC Porto ao Arouca. Em relação ao jogo da Liga dos Campeões frente ao Bilbau, saiu Maicon para entrar Marcano e o resto da equipa repetiu-se. Para os analistas as coisas foram muito simples: Lopetegui não inventou e o Porto ganhou. Não deixa de ser verdade, mas é uma verdade muito limitada. Dar continuidade a uma equipa por si só não é garantia de nada, é preciso corrigir os erros que vão surgindo e adaptar a forma de cada jogador agir às necessidades do conjunto. Foi precisamente isso que o treinador portista fez.

Graças aos golos que o FC Porto tem vindo a sofrer, está bem evidente que o grande problema está na saída de bola a partir da defesa. Por isso, comecemos na única alteração no onze em relação ao jogo anterior. Não há grandes dúvidas que Maicon, quando está bem, é mais jogador do que o Marcano pode aspirar ser, mas isso não significa que seja melhor em tudo. O brasileiro tem-se mostrado muito nervoso e hesitante com a bola nos pés, em contraste, o espanhol tem-se revelado mais sereno e rápido a decidir. A troca levada a cabo por Lopetegui terá sido em grande parte influenciada por isto, mais até do que pelos erros cometidos pelo Maicon.

Mas a grande alteração foi na dinâmica do meio-campo. Pela primeira vez esta época vimos o médio-defensivo (Casemiro, neste caso) fazer de regra e não de excepção o recuo para junto dos centrais para iniciar a construção. O que acontecia nos jogos anteriores era uma troca de bola constante entre os defesas e o guarda-redes e que só saía dali quando um dos jogadores mais virtuosos tecnicamente conseguia criar uma situação de desequilíbrio. Quando este processo corria mal, era perigo pela certa para a baliza portista. Tudo isto porque os três médios jogavam muito adiantados e todos eles de costas para o ataque quando a bola se encontrava em terrenos recuados. O trinco ao baixar dá liberdade aos laterais para subirem e liberta a equipa da pressão dos dois extremos adversários que se veem obrigados a recuar, ao mesmo tempo que lhe permite jogar de frente para o jogo e, a cima de tudo, para a frente. Tudo isto é muito comum no futebol, mas tem sido raro na versão 2014/2015 dos Dragões.

Com a equipa mais estável atrás apareceram os desequilibradores. Danilo está um monstro, Alex Sandro apareceu em bom plano, Quintero está cada vez melhor, Herrera vem também numa sequência de bons jogos, Brahimi é um jogador de topo, Tello uma verdadeira seta apontada à baliza adversária e para Jackson já nem há palavras. Quando se consegue meter tanto talento ao serviço da equipa o resultado está à vista.

Claro que os especialistas e analistas preferiram dizer que a goleada foi fruto da incapacidade do Arouca em pressionar o FC Porto, ignorando o porquê disso ter acontecido. Se tivessem feito esse raciocínio lógico em vez de estarem atentos ao que o Quaresma andava a fazer, talvez tivessem chegado à conclusão que o Arouca não pressionava mais porque não podia nem conseguia. Mérito para a equipa do Porto e para o treinador Lopetegui.

Casemiro e a posição 6


Pelo que me é permitido ler e ouvir, penso que é opinião quase generalizada que Casemiro não é o médio-defensivo que o FC Porto precisa. Talvez devido a vários anos com Fernando na posição, criou-se a ideia no seio portista que quem ali jogar tem de estar em todo lado. Muitos acusam o actual camisola 6 de ser demasiado lento para o lugar e de não ter qualidade para ser titular no FC Porto. Outros há que chegam ao extremo de afirmar que não teria lugar no plantel e que só joga porque veio do Real Madrid. Eu discordo.

Na minha opinião, o Casemiro tem várias características que o tornarão num óptimo trinco a curto prazo: bom desarme, agressividade, bom jogo aéreo e boa capacidade técnica e de passe. O que o separa neste momento de ser um 6 de eleição é a falta de rotina na posição, mas isso adquire-se com jogos e muito treino. Sendo ele um bom profissional e um jogador de selecção - brasileira, não de uma qualquer -, é natural que o processo seja mais rápido.

Curiosamente, surgiu hoje a notícia que Ancelotti pondera fazer regressar ao Real Madrid já em Janeiro aquele que para alguns não tem lugar no plantel dos Dragões. Para isso o clube espanhol teria de terminar o empréstimo meio ano mais cedo e por isso indemnizar o FC Porto. A saída do brasileiro abriria as portas da titularidade a Rúben Neves, que teria a concorrência de Campaña e de Mikel, que por essa altura já estará pronto a jogar. No entanto, acredito que esta cenário não se verificará, uma vez que Casemiro ficaria impedido de alinhar na Liga dos Campeões pelo Real Madrid, algo que não seria do agrado nem do jogador nem do clube.