23 de maio de 2015

A história repete-se

sensivelmente um ano, após o FC Porto perder tudo o que havia para perder, muitos portistas acharam por bem humilhar os jogadores do plantel, como se bater em que já está no chão ajudasse em alguma coisa. Ontem, no último jogo da época, ambos os grupos de apoio ao FC Porto decidiram dar extensão ao protesto que ocorreu a meio da semana às portas do Olival aproveitando para deixar algumas mensagens que não servem para mais nada além de dar aos rivais mais qualquer coisinha com o que gozar. Ainda bem que o ridículo não mata, porque se o fizesse por estes dias o FC Porto teria perdido milhares de adeptos prematuramente.

Os portistas estão para o plantel como aqueles pais que passam o ano todo a dar palmadinhas nas costas dos filhos quando estes voltam da escola com teste negativo atrás de teste negativo, permitindo-lhe ainda que usem todo tempo livre todo para brincar negligenciando dessa forma o estudo, mas que no fim do ano lectivo, ao verem que os filhos terão de repetir o ano, decidem castigá-los durante todas as férias do Verão.

 Não sou contra os protestos e há mensagens que têm de ser passadas de fora para dentro, embora seja apregoado aos sete ventos que o clube é comandado de dentro para fora. O problema aqui é que o tempo útil destas mensagens passou há imenso tempo, tendo sido o empate na Madeira contra o Nacional a última oportunidade para a deixar.

Durante toda a época os grupos de apoio organizados, assim como muitos outros adeptos, preferiram andar aqui e ali em manifestações de apoio, fazendo juras de amor e de apoio incondicional, tornando o gesto ineficaz devido à utilização em excesso. De todas elas, só a realizada espontaneamente após o roubo colossal em Braga se justificou em pleno. Todas as outras tiveram o seu pedaço de exagero.

No entanto, não deixa de ser positivo que, após vários anos em que pareciam domesticadas pela SAD, as claques voltem a ser uma voz de protesto. Só lamento que o alvo escolhido não tenha sido o mais correcto, mas também não se pode exigir tudo de uma vez. Que 2014/2015 tenha servido de lição para todos, uma vez que, aparentemente, não foi o caso de 2013/2014.

20 de maio de 2015

Mitos contemporâneos

Boavista 0-2 FC Porto
Quando uma equipa como o FC Porto não vence o campeonato existem, praticamente, apenas duas opções para o justificar: ou foi porque falhou redondamente, como foi o caso de 2013/2014 com Paulo Fonseca; ou então porque falhou num qualquer momento que, a posteriori, vai-se a ver era um momento-chave. Embora seja uma conclusão básica, não deixa de ser engraçado que haja pessoas a serem pagas para dizer isto semanalmente um pouco por todos os meios de comunicação. E fazem-no com o orgulho próprio de quem acabou de descobrir a roda ou mesmo o fogo.

FC Porto 3-0 Sporting
Como o FC Porto perdeu o campeonato a uns abismais três pontos do melhor Benfica de todos os tempo torna-se difícil incluir o campeonato na categoria dos catastróficos, há que vender a ideia de que os comandados por Lopetegui falharam em todos os momentos-chave da época. Não foi em um nem em dois, foi em todos. Quem o diz são os especialistas e grande parte dos portistas vão na onda, alinhando muitas vezes chorrilho de críticas à equipa que tem tanto de injusto como de injustificado.

SC Braga 0-1 FC Porto
Desde a derrota na Madeira frente ao Marítimo que para o FC Porto todos os momentos passaram a ser momentos-chave. Nessa jornada o Benfica ficou com a possibilidade de aumentar a diferença pontual para nove pontos em caso de vitória mas, curiosamente, os comandados por Jorge Jesus, aqueles que não vacilaram nos momentos-chave, acabaram por sair derrotados de Paços de Ferreira. Depois disso, o FC Porto venceu nas oito jornadas seguintes, mas tratavam-se apenas de momentos banais, presumo.

FC Porto 1-0 Arouca
Se o FC Porto tivesse sido campeão, vitórias como o 0-2 no Bessa mesmo sem Casemiro, Alex Sandro e Danilo convenientemente castigados em simultâneo; o 3-0 ao Sporting com um exibição de encher o olho; o 0-1 em Braga - campo onde a equipa que não vacila em momentos-chave perdeu - mesmo tendo perdido Jackson por lesão com o jogo em 0-0; ou até o suado 1-0 na recepção ao Arouca tendo de jogar 80 minutos em inferioridade numérica tendo jogado a meio dessa semana para a Liga dos Campeões, todos eles levariam o rótulo de momento-chave.

É fácil comprovar que é uma absoluta mentira dizer que o FC Porto não venceu nenhum dos jogos que não podia admitir outro resultado que não fosse a vitória. Por isso é que, para tentar justificar algumas posições, existe a tendência de reanimar velhas tretas como a falta de mística, a teoria que certos jogadores só correm para a Liga dos Campeões, ou dizer que é inadmissível uma equipa que quer ganhar o campeonato ter já empatado por sete vezes.

A diferença entre FC Porto e Benfica desta época reside precisamente aqui. Enquanto que os agora bicampeões viram as equipas de arbitragem ajudar a transformar empates em vitórias (por exemplo na Madeira frente ao Nacional ao anular um golo por fora-de-jogo à equipa da casa quando Marco Matias estava um metro em linha, ou na deslocação ao Estoril em que Enzo Pérez transformou uma simulação grosseira, que deveria ter valido o segundo amarelo ao próprio, numa expulsão para a equipa anfitriã), o FC Porto foi impedido de chegar à vitória pelos mesmos protagonistas (como por exemplo em Alvalade ou em Guimarães).

Não me revejo nas manifestações contra a equipa que, pelo segundo ano consecutivo, alguns adeptos tiveram a infeliz ideia de fazer contra a equipa depois de estar consumada a perda do campeonato. Primeiro, porque o tempo útil de qualquer tipo de pressão psicológica já havia ido há muito tempo, depois porque não partilho da ideia de que houve falta de empenho por parte dos jogadores. O que aconteceu após o empate a zero na Luz deixou a equipa abalada psicologicamente porque toda a gente ficou com a noção de que o campeonato estava perdido. E mesmo o 0-0 frente ao Benfica se deve em grande parte ao desgaste físico e psicológico que antecedeu o clássico. Acreditam que o resultado teria sido o mesmo naquele período de maior fulgor portistas, antes das lesões de Tello e Jackson? Por aqui se percebe a urgência que o Benfica sentiu em adiar a final da Taça da Liga contra o Marítimo para que o FC Porto não tivesse tempo para se recompor.

Em relação ao campeonato em geral, o segundo lugar deve-se em grande parte à inexperiência do treinador e do plantel. Por isso mesmo é fundamental manter o maior número de elementos do grupo actual, treinador incluído, para que não seja preciso recomeçar uma vez mais o processo de maturação. Principalmente porque, apesar da inexperiência, não havia muito o que fazer perante um cenário tão inclinado como foi esta Liga NOS. Bastava tirar as arbitragens da equação que o resultado tinha sido outro e de forma bastante clara. Toda a gente sabe isto, por isso não entendo a tendência de apontar noutras direcções.

18 de maio de 2015

A base está construída

Pinto da Costa trouxe Lopetegui para o FC Porto e deu-lhe um contrato de três épocas, tendo ainda o clube a opção de acrescentar outras duas. Significa isto que o plano passa por da estabilidade ao treinador e ao clube, para que haja tempo de alicerçar um projecto sólido. Obviamente que a época que agora termina não é indiferente e que se perdeu uma boa oportunidade de ganhar o campeonato, mas a sensação que deu desde o inicio foi que por muito que o FC Porto fizesse, na hora H aparecia sempre algo a fazer a balança pesar para o outro lado. O empate frente ao Belenenses acaba por ser normal tendo em conta que o campeonato ficou perdido no empate na Luz, embora o treinador e muita gente se recusassem a admiti-lo. O FC Porto perdeu a última oportunidade de ser campeão a trocar a bola na defesa no tempo de descontos desse jogo, quase como se houvesse um qualquer pacto de não-agressão. Depois disto, esperar que fossem os dois últimos classificados ou os amigos madeirenses a ajudar o Vitória de Guimarães a roubar pontos a uma equipa de trintões, programada para bater em mortos e jogar para o pontinho contra os adversários com capacidade para fazer cinco passes seguidos, é inconcebível. Pior ainda quando olhamos para os factos e percebemos que o Benfica jogou sempre com o vento a favor, beneficiando de todo o tipo de ajudas. Mesmo que o cabeceamento do Jackson aos 90'+3' tivesse entrado, o Benfica teria ainda imenso tempo para forçar a vitória - com o sem ajudas - uma vez que o jogo do FC Porto terminou e em Guimarães entrava-se no minuto 88, sendo ainda acrescentados 6 de descontos pelo árbitro. Depois de tanto alarido porque um jogo do FC Porto começou um minuto e alguns segundos atrasado na fase de grupos da Taça da Liga, não deixa de ser curioso que ninguém se dê ao trabalho de mencionar isto. Ou, imagine-se, a LPFP resolver o problema.

O que fica para a História é que o Benfica ganhou dois campeonatos seguidos e, fazendo fé na comunicação social, honra lhes seja feita: acabaram com a hegemonia do FC Porto dos últimos 34 anos. Só mesmo ao alcance dos predestinados, porque nem Sporting e Boavista, responsáveis pelo maior período de seca do FC Porto tendo Pinto da Costa como presidente - 3 épocas -, conseguiram em conjunto alcançar tal feito. Os outros iam ganhando mas a hegemonia portista continuava, só mesmo o Benfica, qual D. Sebastião, para lhe por termo. A que custo ainda vamos ver.

Dito isto, importa não esquecer o seguinte: FC Porto e Benfica, mais próximos do que nunca no que a competitividade diz respeito, cruzaram-se esta época vindo de trajectórias bem diferentes. Enquanto os lisboetas vão espremendo o último sumo de um plantel cada vez mais envelhecido e perdendo a cada janela de transferências opções importantes, deixando ficar apenas os mais velhos, o FC Porto começou o trajecto inverso após ter andado a fazer algo semelhante no pós-Villas-Boas.

Muito se fala no fim de ciclo no Dragão, quando o mesmo fechou com a saída de Vítor Pereira. Neste momento quem se encontra em fim de ciclo é o plantel liderando por Jorge Jesus que, se for/fosse inteligente aproveitava para sair pela porta grande. O clube não se pode dar ao luxo de continuar a fazer uma forcinha para garantir o terceiro lugar na fase de grupos da Champions para tentar vencer a Liga Europa ou, à imagem do que aconteceu este ano, cair mesmo nas provas europeias em Janeiro para se dedicar apenas ao campeonato. As finanças começam a apertar e os anéis já foram quase todos, os adeptos vão começar a exigir mais levados pela euforia de um feito do qual já não havia memória no clube, e os jogadores vão começar a querer novos voos. O FC Porto, fruto do sucesso das últimas décadas, passa por isso quase todas as épocas, veremos como o Benfica se aguentará.

Lopetegui tem agora uma missão diferente da que lhe foi dada na época que agora termina. Este ano chegou com o objectivo de colocar o FC Porto na Liga dos Campeões e preparar a equipa para dominar o futebol português nos próximos anos, no próximo terá de começar a colher os frutos. Para isso será preciso reconstruir o plantel. Entre emprestados, equipa B, quem sabe sub-19 e contratações pontuais, será preciso colmatar as saídas de alguns jogadores que até agora foram fundamentais, como é o caso de Danilo e, muito provavelmente, Jackson Martínez e/ou Alex Sandro.

Apesar disso, existirá sempre a vantagem de manter uma base para começar a nova época sem apressar a integração no onze dos reforços. Isso não foi possível em 2014/2015 fruto dos absurdos 17 novos jogadores no grupo, sendo isso uma das possíveis causas da instabilidade promovida pelo treinador no onze numa fase inicial. Em 2015/2016 Lopetegui já saberá com quem contar, mas, principalmente, com o que contar em muitos dos jogos do campeonato.

O título de sub-19 promete uma nova fornada de jovens talentos nos próximos anos, equanto que na equipa B já há muito o que aproveitar. A classificação não reflecte a qualidade da formação secundária do FC Porto, que em janeiro viu jogadores com Ivo, Kayembe e Otávio partirem por empréstimo e Gonçalo Paciência mudar-se para a equipa principal. Com a chegada da fase final do campeonato de sub-19, tornou-se mais dificil ainda porque foram vários os jogadores que deixaram de poder ajudar os comandados por Luís Castro, ficando assim a equipa B com um grupo muito limitado e a competir na longa II Liga e na Premier League International, tendo mesmo chegado à final da prova.

Estou certo que a próxima época começará com um FC Porto detentor de um plantel forte e competitivo, capaz de dominar no campeonato e fazer uma boa campanha na Liga dos Campeões. A única coisa que poderá impedir o título de voltar ao Dragão será uma combinação de erros próprios com o colinho para os do costume e com a passividade dos responsáveis portistas. No fundo, a mesma formúla que roubou este campeonato ao museu do FC Porto.