3 de março de 2016

Dêem-me 11 Maregas

Se há coisa que me tem feito uma bocado de confusão - ou metido nojo, caso prefiram - é o gozo constante em volta de Marega. Porque é tosco, porque não sabe correr, porque tem outra coisa qualquer em vez de pés e por aí fora. A mim não me faz confusão que um jogador tenha uma ou outra lacuna caso esta seja compensada com algum esforço e com o aproveitamento de outras vertentes em que possa ser forte. O maliano, não sendo um poço de talento, vai levando a água ao seu moinho através da força e velocidade que lhe são naturais e da responsabilidade táctica que foi trabalhando; vejo-o como uma espécie de Varela mas com vontade e capacidade para correr. E foi assim que Marega chegou ao Marítimo na época passada e em meia época marcou, para o campeonato, sete golos em 14 jogos. Esta época levava já 5 golos em 15 jogos da primeira liga antes de despertar o interesse dos três grandes e acabar de dragão ao peito.

A cantiga de que o FC Porto enfraqueceu o plantel em Janeiro para mim não passa de uma treta, porque uma equipa de futebol não vive só de artistas de de fintas bonitas, é preciso haver carácter e nisso entre saídas e chegadas o balanço foi bastante positivo. Porque entre ter um Imbula, um Tello ou um Aboubakar a fazerem o favor de aparecer aos jogos, prefiro ter Suk e/ou Marega em campo a dar tudo pela equipa, a fazerem o que sabem e o que não sabem para garantir o melhor para o clube. E foi assim que ontem, por exemplo, o novo camisola 11, fez um sprint desde o meio-campo defensivo para finalizar uma jogada na segunda parte da segunda mão de uma eliminatória que ficou decidida na primeira e que nem a 5000 pessoas interessou.

O que cada um deve perguntar a si próprio é: com o campeonato a ganhar emoção à medida que se aproxima do final, prefiro ver o Corona arrastar-se em campo ou o Marega a fazer das tripas coração para disputar cada jogada como se a vitória estivesse dependente disso? É assim tão provável um jogador qualquer, por muito limitado que seja tecnicamente, fazer pior do que Brahimi nos 10 jogos anteriores ao Belenenses - FC Porto em que marcou apenas um golo e fez só uma assistência? Não tenho nada contra o argelino nem contra o mexicano, até sou um grande defensor de ambos e acho que terão oportunidade para se redimirem nos jogos que faltam, mas neste momento a resposta a ambas as questões é óbvia.

Não foi por jogadores como o Marega que o FC Porto chegou onde está, mas é com a ajuda deles que se tem levantado. Foram os falsos craques que com uma ou outra "ajuda" arrastaram o clube para este vazio. Por isso há que pensar duas vezes antes de ridicularizar jogadores empenhados, porque muitos dos males desta equipa podem ser curados com uma dose forte de sacrifico e isso têm eles para dar e para vender. "Não queremos vedetas e mimados mas sim campeões empenhados".

28 de fevereiro de 2016

Já estamos a ganhar... E agora!?

Depois de ver a equipa do FC Porto entrar com uma jogada ensaiada, como já não me lembrava de ver, e ganhar um canto logo nos primeiros segundos fiquei convencido que os jogadores estavam empenhados em tornar o jogo fácil. Os minutos seguintes confirmaram isso e cedo apareceu o 0-1 e ainda com muito para jogar na primeira parte o 0-2. Depois disso, nada.

Deu a sensação de que, depois de vários jogos a entrar a perder, o FC Porto se esqueceu de como segurar uma vantagem de forma segura. Como é possível uma equipa que ainda até há bem pouco tempo perdia minutos a trocar a bola sem grande objectivo não conseguir agora fazer quatro passes seguidos, não sei, mas aconteceu. Felizmente a entrada de Evandro trouxe alguma serenidade e capacidade de circulação, porque as coisas estavam a encaminhar-se a bom ritmo para este texto ser sobre um empate.

Suk não esteve brilhante, mas a forma como pressiona o adversário e luta por cada bola é um exemplo prático do que deve ser um jogador à Porto. Embora tivesse ficado em branco, foi fundamental a entrega que colocou no lance que dá o 0-1. Tem conquistado o lugar a pulso com as oportunidades que lhe foram sendo dadas para poupar Aboubakar. O camaronês tem agora que trabalhar muito mais se quiser recuperar o lugar. Quem fica a ganhar com isso é o FC Porto.

A entrada de Evandro mostrou a principal razão pela qual Herrera não pode ser o 10 nesta equipa. A entrega com que o mexicano joga merece louvor e deve ser aproveitada pelo treinador, mas a incapacidade de decidir rápido fazem dele um mau criador de jogo quando o adversário é mais pressionante. A solução? Jogar mais recuado, próximo de Danilo, como fez nos minutos finais. Aí ganha preponderância na recuperação de bola e espaço para usar a mobilidade que lhe é reconhecida.

Já todos sabemos que Marega não faz da técnica livro de visita e que tem muito por onde evoluir nesse aspecto. No entanto, consegue criar mais oportunidades com todas essas limitações do que Corona com dois pés capazes de fazer a diferença. Desde a troca de treinador que o camisola 17 tem estado irreconhecível. O FC Porto precisa de todos os jogadores a jogar de forma consistente se ainda quiser ter uma palavra a dizer na luta pelo título, sendo Corona um dos mais talentosos era importantíssimo que colocasse uma pedra sobre as exibições cinzentas. Ainda mais agora com a eventual lesão de Brahimi.

A eliminação das competições europeias foi dolorosa mas também trouxe vantagens. O jogo da próxima quarta-feira frente ao Gil Vicente será o último realizado a meio da semana. Depois disso, até ao fim do campeonato José Peseiro terá finalmente tempo entre os encontros para recuperar a equipa fisicamente e trabalhar de forma mais eficaz a vertente táctica. O que olhando aos últimos jogos só pode ser encarado como uma óptima notícia.

26 de fevereiro de 2016

Para relembrar os mais distraídos

Este foi o segundo ano consecutivo em que o FC Porto foi jogar à Alemanha com uma defesa remendada. Se no ano passado em Munique foi absolutamente trágico, desta vez a equipa escapou "só" com um 2-0 devido à menor valia do Borussia Dortmund quando comparada com a do Bayern Munique. Em ambos os jogos houve jogadores castigados porque Lopetegui não geria os cartões, ia varrendo para debaixo do tapete até ser impossível ignorar o assunto. Leia-se, quando os jogadores já estavam impedidos de jogar. E foi com Maxi e Danilo castigados na Europa que Peseiro assumiu o comando da equipa. Se juntarmos isto ao escasso número de opções para a defesa e à saída do Maicon as contas são fáceis de fazer.

É muito fácil vir a público analisar números, dizer que com fulano eram marcados não sei quantos golos em média por jogo, que não sei quem era gajo para ganhar quatro segundas bolas por jogo e que a outra defesa só consentia um golo quando o rei fazia anos. Mas o futebol não é basquetebol. No futebol as equipas não têm os segundos contados para atacar, por exemplo. Assim sendo, mais importante que debitar números que se encontram num qualquer site de estatísticas, é perceber o cenário que levaram a esses números.

Dito isto, é relativamente fácil perceber que José Peseiro não teve a menor responsabilidade pela equipa que escolheu para jogar em Dortmund. Aquilo foi o resultado de vários anos de planteis a serem formados sem olhar às vagas especificas para jogadores nacionais (quatro deles formados no clube e outros quatro formados no país) e de um antecessor no comando técnico que não dava a menor importância aos castigos por acumulação de cartões amarelos. No fundo, foi-lhe dado a escolher entre uma saída em estrondo - como no ano passado frente ao Bayern - ou fazer uma abordagem cautelosa e proteger o grupo de uma nova humilhação.

Só para dar um exemplo do que digo em relação à SAD e às vagas para jogadores formados localmente pego na situação do Gudiño. Um jogador tem de jogar três anos num clube entre os 15 e os 21 para ser considerado pela UEFA como formado nessa equipa. O guarda-redes mexicano chegou ao FC Porto com 18 anos, ou seja, com três anos certos até fazer 21 e dessa forma ser considerado como atleta da formação portista. O que decidiram os responsáveis? Emprestá-lo ao União da Madeira e retirar-lhe definitivamente essa possibilidade. Pior: um jogador passa a ser elegível para a lista B quando tem menos de 21 anos e joga há dois anos consecutivos no mesmo clube. Gudiño perdeu também essa possibilidade com este empréstimo e agora o máximo que pode aspirar é a ser considerado como formado em Portugal. Isto se na próxima época não for emprestado para o estrangeiro.

São pequenos detalhes que não deviam ser esquecidos por uma estrutura considerada altamente profissional e que tem consequências a médio e longo prazo. Não se pode depositar as culpas todas sobre um treinador acabado de chegar e que ainda mal teve tempo entre os jogos para preparar a equipa.

Apesar de José Peseiro ser um treinador com a fama de ser mau a preparar a equipa defensivamente, convém relembrar que se não fossem situações como o golo anulado indevidamente a Brahimi contra o Arouca o FC Porto tinha muito provavelmente vencido esse jogo e estava neste momento dependente apenas de si próprio para ser campeão, com os mesmos pontos do Super Benfica e a três do Super Hiper Mega melhor Sporting das últimas décadas. Isto apesar de condicionado por um plantel com poucas opções defensivas, com várias lesões nesse mesmo sector, e, como tem sido repetido sistematicamente até à exaustão, com um treinador que só olha para o ataque.

Faltam 11 jornadas para acabar o campeonato. Com 33 pontos em disputa tudo é possível, principalmente quando existe ainda um Sporting-Benfica e um FC Porto-Sporting pelo meio. Veremos como se comporta o FC Porto a partir de agora com uma semana para se preparar para cada jogo.